terça-feira, 1 de maio de 2018

O CANTAR DO GALO – reflexões sobre o texto bíblico e uma tese



por Inajá Martins de Almeida

Instigou-me sobremaneira a proposição do prof. Enzo, em sala de aula, quanto ao significado do cantar do galo na negação de Pedro.

Confesso que essa questão sempre estivera presente em meus pensamentos de forma interrogatória. Agora interrogativa.

No primeiro momento, vali-me da releitura dos textos. Abstraí questões, despercebidas em leituras anteriores. Imediatamente aventurei-me às linhas.

Apontamentos começaram alinhavar retalhos de palavras, do texto ao contexto. Ovelhas. Rebanho. Esta noite. Vigília. Seguir de longe. Aquecer ao fogo.  Na calada da noite. O escandalizar. O negar. O sono pesado. O despertar. O choro. O cantar do galo. O ressoar. Outro mais.

Às mãos, faltavam-me bibliografias. Porém, a internet - a galáxia cibernética – me encaminharia à tese.

“A verdade sobre o “Canto do Galo” no episódio da Negação de Pedro” – estudo do teólogo e pastor Carlos Augusto Vailatti - a partir de então iria ocupar minhas noites de sono. Pontuar retalhos. Alinhavar palavras. E me alegrava ante o universo das descobertas. “Conservar crenças”. “Temer interpretações”... Era o texto que me chamava. Ao texto adentrava. O contexto complementava. 

A “interpretação alternativa”. Os “elementos linguísticos, contextuais, culturais e históricos” aguçavam minha mente. Logo os registros se fariam necessários.

MATEUS 26:34
MARCOS 14:30
LUCAS 22:34
JOÃO 13:38

Disse-lhe Jesus: em verdade te digo que nesta noite, antes do galo cantar, três vezes me negarás

E lhe diz Jesus: Em verdade te digo que tu, hoje, nesta noite, antes de duas vezes (o) galo cantar, três vezes me negarás

Mas ele disse: digo-te, Pedro, não cantará hoje (o) galo até que três vezes negues me conhecer

Responde Jesus: a tua vida por mim darás? Em verdade, em verdade te digo, de modo nenhum (o) galo cantará até que negarás a mim três vezes.

Do texto, pontuava os tópicos à minha inteligibilidade. Transcrevia tópicos.

1)    Todos os Evangelhos são unânimes à tripla negação
2)    O termo “Nesta noite” aparece em Mateus e Marcos
3)    O adjetivo adverbial de tempo - “Hoje”  aparece em Marcos e Lucas
4)    Detalhes da tripla negação  - Antes do cantar – em Marcos
5)    Esclarecimento sobre o significado da negação - ...”negues me conhecer” – Lucas
6)    Pedro é questionado : “A tua vida por mim darás?” – somente em João
7)    Variações verbais

O “lugar” onde Pedro se encontrava. “O cantar do galo” me enredava mais e mais ao estudo. Fantástica viagem!

À dissertação em tela, enumerada era de forma sucinta:

1)      A casa do “Sumo Sacerdote estava no centro de Jerusalém”, para poder demonstrar a inexistência de galinheiros naquela localidade.

2)      Divisão do dia em período de três em três horas sendo:
- primeira vigília das 18 às 21 horas – termo também abreviado pelos judeus por “tarde”
- segunda vigília das 21 à meia noite – pelos judeus “meia noite”
- terceira vigília da meia noite às 3 horas –  “canto do galo” expressando o final da 3ª vigília
- quarta vigília das 3 às 6 horas – “de manhã”

3)      Uso de latinismos – expressões latinas – utilizada pelos romanos
- primum gallicinium – primeiro toque da trombeta – período entre a meia noite e 3 horas da   madrugada
- secundum gallicinium – segundo toque da trombeta – período entre as 3 da madrugada e 6 horas da manhã (o primeiro e segundo toques de trombetas emitidos na fortaleza Antonia)
- “gallicinium” – cantar do galo

4)      Emprego de palavras em grego tal qual - foneo – ressoar

E compactuava o autor e também me perguntava:

Poderia então o “galo cantar”, ou a “trombeta ressoar”? Teríamos a compreensão literal ou metafórica do texto?

Percebia que a tese não engessava o pensamento. A interrogação vislumbrava pontos. Linhas convidavam ao embarque. Podíamos viajar. Era o momento em que minha imaginação buscava as linhas em alinhavos de palavras quando...

Jesus alertara Pedro e os discípulos.

“Esta noite todos vós vos escandalizareis de mim porque está escrito: ferirei o pastor e as ovelhas do rebanho ficarão dispersas...  (Mt 26:31-35)

Pedro e os demais questionavam o não negar. O não se escandalizar. Não foi o que percebemos do texto. Uma. Duas. Três. Poderia ser também o alerta para os tempos atuais? Você conhece esse homem?

Independente da resposta, Jesus sabia. Jesus sempre sabe. Três vezes alertados à vigília, pesado e profundo sono os abateria. E voltariam a dormir. E Sua alma se entristecia à morte. Antes que duas vezes o galo cantasse, três vezes Pedro o negaria. E O negou. O galo cantou? A trombeta soou ou ressoou?

Eram as ovelhas que ainda “esta noite” – durante a vigília – estariam sem Pastor. O rebanho quem, sabe se faria disperso. À distância Pedro – de longe – temeroso, assustado, seguia aquele que jurara jamais abandonar. Jamais se escandalizar. Jamais O deixar de amar. Aquecido ao fogo. Na calada da noite. À distância - observava. E O negava. E chorava.

Lembram os retalhos de palavras alinhavados? Ou continuamos a dormir sob pesado sono? Vamos despertar “o choro” da nossa consciência.

Pois, se o “ressoar do galo” na fortaleza Antonia ou “o cantar do galo” na casa do sumo sacerdote provocaram inquietações, não podemos afirmar. O que não podemos negar é que Ele bate à porta. Chama-nos pelo nome. Dá-nos a oportunidade de sermos novas criaturas. Basta apenas que estejamos despertos.

Então, busquemos e perseveremos em segui-lO de perto. Pedro, com certeza foi desperto. Pelo “cantar do galo”? Pela “trombeta”? Pela própria consciência, jamais o saberemos. Mas é Pedro que vamos encontrar ao lado do Mestre ressuscitado. É Pedro que nos dá grandes lições no derramar do Espírito, independentemente do cantar do galo ou do ressoar da trombeta.

Referências:
BLOG CARLOS AUGUSTO VAILATTI

ARTIGO TEOLÓGICO CARLOS AUGUSTO VAILATTI





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